O varejo altera seus preços?
A pergunta reaparece sempre que há mudanças relevantes nas cadeias de carnes, principalmente quando boi, suíno e frango seguem direções diferentes.
Os números mostram que o varejo altera, sim. Como exemplos, utilizamos o IPCA-15 do IBGE e as séries de preços da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná. São metodologias diferentes, mas ambas mostram preços em movimento.

O comportamento das demais carnes ajuda a interpretar esse movimento. Vários cortes bovinos continuam acumulando altas. Isso combina com a entrada da pecuária na fase de retenção do ciclo, que tende a reduzir a oferta futura. Já o frango, embora normalmente funcione como referência de proteína competitiva, não impediu o ganho de competitividade relativa da carne suína nas prateleiras.
Portanto, não existe rigidez absoluta de preços no varejo. O que existe é comportamento desigual entre produtos, cortes, regiões, redes e momentos de venda. Estoques adquiridos em referências anteriores, estratégias promocionais, concorrência local, posicionamento de marca, elasticidade da demanda e necessidade de giro ajudam a explicar por que algumas etiquetas mudam rapidamente e outras permanecem estáveis.
O problema é que a discussão costuma parar antes da análise. Repete-se que “o varejo segura preço”, que “o boi puxa o suíno” ou que “o frango impede a reação”, como se essas frases fossem leis econômicas. Não são.
O desafio atual não está nos números. Eles estão disponíveis, atualizados e acessíveis a qualquer pessoa disposta a olhar. O desafio está nos fundamentos usados para interpretá-los: oferta, demanda, elasticidade, formação de margem, concorrência, substituição entre proteínas e comportamento cíclico.
Esses conceitos frequentemente cedem espaço a crenças herdadas de uma época em que os dados eram escassos e a intuição, necessariamente, supria a lacuna.
Quando o dado passou a estar disponível, a exigência mudou. Não basta repetir uma explicação. É preciso confrontá-la com a série.
Talvez a maior rigidez do mercado atual não esteja nas etiquetas do varejo. Esteja nas ideias com as quais ainda insistimos em interpretá-las.

Texto originalmente escrito para o Boletim de Mercado da Três 333 Brasil.