Quando o retrovisor não ajuda

Toda análise de mercado depende, em alguma medida, do passado. Não para repeti-lo, mas para calibrar expectativas, identificar padrões e reduzir a margem de erro nas projeções.

O problema é quando o passado disponível não é comparável ao presente. É exatamente essa a situação da suinocultura brasileira em 2026.

A partir de 2013, o IBGE promoveu uma mudança metodológica relevante na forma de mensurar a produção suinícola. A própria nota técnica do instituto registra: “Os dados sobre peso das carcaças de suínos, referentes a 2012 e 2013, foram revisados e não devem ser comparados com os da série histórica compreendida até 2011. Existe ocorrência de equívoco de registro de peso dos suínos vivos em lugar de peso das carcaças, em anos anteriores.” A mudança foi tecnicamente necessária. Mas criou uma descontinuidade: o que temos antes de 2012 não é comparável ao que temos depois. O retrovisor, nesse ponto, está embaçado.

Isso importa porque os últimos 13 anos registraram duas crises relevantes de preços na suinocultura brasileira e ambas encontraram solução pelo mesmo caminho: o mercado externo.

A crise de 2018 se resolveu com a abertura das exportações para a China a partir de 2019. A crise de 2022 encontrou alívio nas exportações para as Filipinas a partir de 2024.

Não é um padrão estrutural são dois casos, e dois casos não fazem uma lei. Mas são os únicos casos conhecidos dentro da série metodologicamente consistente.

Portanto, nas crises registradas dentro da série moderna do IBGE, o principal mecanismo de ajuste não foi uma redução expressiva do peso dos animais. Foi o crescimento da demanda externa, retirando carne do mercado interno e recompondo o equilíbrio entre oferta e procura.

A crise de preços de 2026 nos coloca diante de uma situação diferente. O Brasil já opera com exportações elevadas e, até agora, não apareceu um novo destino capaz de reproduzir o impacto da China ou das Filipinas. Ao mesmo tempo, a produção cresceu, os animais chegaram a pesos elevados e a liquidez diminuiu.

O ajuste de peso passa, então, a ocupar posição central. Reduzir o peso de abate diminui rapidamente a quantidade de carne produzida, sem depender da redução imediata do número de matrizes ou de animais alojados. É um mecanismo biologicamente rápido, embora economicamente ainda pouco documentado em escala nacional.

Não temos, na série comparável do IBGE, uma crise recente solucionada predominantemente dessa forma. Sabemos a direção do ajuste, mas não temos referência histórica suficiente para estimar sua intensidade, duração ou velocidade. O analista honesto reconhece quando o mapa não existe.

O que resta é observar o comportamento da demanda interna com mais atenção do que o habitual e admitir que, desta vez, a solução pode vir de um lugar que ainda não sabemos nomear.

 

Texto originalmente escrito para o Boletim de Mercado da Três 333 Brasil.

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A Suinsoft é uma plataforma tecnológica dedicada a apoiar a produção de suínos em várias etapas do processo. Nossa abordagem abrange desde as operações internas de gestão das granjas até a análise do rendimento no processamento dos animais, bem como uma visão analítica sobre o mercado e a formação de preços.
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