O mercado tem chamado 2025 de um dos melhores anos da história recente da suinocultura brasileira. Para reduzir ruídos de percepção, vale olhar números e comparar o período pós-Plano Real: são 30 anos de referência.
O indicador aqui é a relação de troca: quantos quilos de ração o quilo do suíno paga. Para isso, usamos um custo de ração “médio” feito com milho, farelo de soja e dólar (US$), na proporção que cada um pesa no custo. Em termos simples, é poder de compra: preço do suíno dividido pelo custo do mix de ração (milho, farelo e dólar, na proporção do mix). No mix 67% milho + 25% farelo + 8% US$, a média histórica do índice fica em torno de 4,6. Acima disso, o quilo de suíno compra mais “ração equivalente”; abaixo, o poder de compra cai e a margem potencial tende a comprimir. Essa média não é sinônimo de lucro ou prejuízo; é um ponto de referência para saber se o momento está bom ou apertado. O resultado financeiro final é individual e depende do custo total e da eficiência técnica de cada granja.
O olhar semestral ajuda a dissipar distorções da média anual, porque mostra a diferença entre o 1º e o 2º semestre — quando um semestre compensa (ou destrói) o outro. De 2021-S2 até 2023-S1, foram quatro semestres abaixo da média histórica: um período prolongado de relação de troca desfavorável. Em 2023-S2 e 2024-S1, o indicador volta para a zona da média.
A virada mais clara ocorre em 2024-S2, quando o índice sobe para 5,50. Em seguida, 2025 consolida dois semestres acima da média (5,21 no S1 e 5,80 no S2), com folga clara. Não é sensação; é conta. A leitura fria é que 2024-S2-2025 combinou competitividade do custo alimentar com sustentação do preço do suíno, suficiente para elevar o poder de compra do produtor — afinal, o preço se manteve na faixa de resistência histórica.
A reflexão é simples: relação de troca boa melhora o poder de compra, mas não vira “novo normal”. O histórico mostra claramente que 2021–2023 e 2002–2003 foram fases de aperto forte. Depois de vales desses, a recuperação pode até parecer maior do que é. Parte do rótulo de “melhor ano” é contraste.
A diferença entre suinocultores não está em “prever mercado”, e sim em ter método. Quem atravessa melhor todas as fases combina três disciplinas: custo sob controle (processos e indicadores), caixa protegido (capital de giro e dívida organizados) e decisão com dado (sem operar na torcida).
A provocação é objetiva: se o cenário voltar a apertar, o mercado não “avisa” — ele só cobra. E quem não tiver gestão estruturada devolve resultado rápido.
Texto originalmente escrito para o Boletim de Mercado da Três 333 Brasil.