Teto de preços: Quando a teoria bate no bolso

Com a divulgação dos dados completos do 1º trimestre de 2025 pelo IBGE e a recente revisão dos números de 2024, temos agora base sólida para analisar a trajetória da disponibilidade interna de carne suína e seus desdobramentos sobre o mercado.

Em 2024, a produção cresceu +1,14% sobre 2023 (+60.331 toneladas); as exportações in natura líquidas aumentaram +8,46% (+90.076 toneladas), com um saldo de carne no mercado interno recuando -0,75% (-31.745 toneladas). Um ano muito positivo, favorecido também pela redução de custos.

Essa análise, agora com base trimestral, permite reconstituir o cenário desde a arrancada de preços iniciada em junho de 2024, com ápice em novembro. A tabela a seguir resume as variações de produção, exportação e disponibilidade interna:

Trimestre Produção (t) Δ Produção Exportações (t) Δ Exportações Mercado Interno (t) Δ MI % Produção % Exportação % MI
2024 T1 1.292.416 -7.349 247.028 -22.825 1.045.387 15.476 -0,57 -8,46 1,50
2024 T2 1.337.085 44.669 282.331 35.303 1.054.754 9.366 3,46 14,29 0,90
2024 T3 1.402.998 65.913 333.097 50.766 1.069.901 15.147 4,93 17,98 1,44
2024 T4 1.326.399 -76.599 318.547 -14.550 1.007.852 -62.049 -5,46 -4,37 -5,80
2025 T1 1.319.667 -6.732 291.679 -26.868 1.027.988 20.136 -0,51 -8,43 2,00

Observe que o maior volume disponível no mercado interno foi registrado no terceiro trimestre de 2024 (1,069 milhões de toneladas), justamente quando também ocorreu o maior volume exportado (333 mil toneladas). No terceiro trimestre de 2024, convivemos com a maior exportação do período (mais demanda) e o maior volume disponível internamente (mais oferta) — forças com efeitos opostos sobre os preços.

Nossa hipótese inclui o comportamento de repasse de preços além dos volumes disponíveis.

Tomando como base o mês de maio de 2024 (início da trajetória de alta foi em junho), vemos que em novembro daquele ano o suíno vivo em Minas Gerais, segundo o CEPEA, acumulava valorização de +44,84%. Já a carcaça suína no atacado (SEAB) subia +41,87% (diferença de -2,97 p.p.), o pernil no varejo +26,96% (-17,88 p.p.) e o lombo +23,91% (-20,92 p.p.).

Agora, em maio de 2025(sobre maio de 2024), as variações são outras: suíno ao produtor em MG está +20,91% mais caro, a carcaça +28,14% (+7,22 p.p.), o pernil +34,46% (+13,54 p.p.) e o lombo +29,81% (+8,89 p.p.).

Em resumo, de junho a novembro de 2024, o atacado — e principalmente o varejo — retardaram os repasses das altas de preços percebidas pelo produtor. A partir de dezembro, com a oportunidade dos festejos de final de ano, os repasses vieram e se mantiveram, recompondo margens dos elos seguintes da cadeia e aí, sim, afetando o consumo e o fluxo entre os elos da cadeia de produção.

A evidência sugere que a razão para termos ultrapassado o teto histórico foi primeiro a força das exportações no segundo semestre de 2024 — não apenas a escassez interna. Cremos muito que o não repasse dos custos ao varejo também manteve a demanda frigorífica aquecida e sustentou os preços ao produtor.

Já agora, com os preços no varejo corrigidos e as margens recompostas, voltamos a encontrar dificuldade em romper o teto histórico. No caso de Minas Gerais, esse teto está hoje em R$ 8,50 — valor que, mais do que simbólico, volta a funcionar como um limite real.

Quando todos os elos da cadeia já ajustaram seus preços, a resistência de mercado deixa de ser apenas teoria e passa a ser um teto concreto, e mais difícil de ser superado.

Texto originalmente escrito para o Boletim de Mercado da Três 333 Brasil.

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